A política paulista ferve com uma acalorada disputa sobre a paternidade de bilhões em investimentos em infraestrutura. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o pré-candidato ao governo, Fernando Haddad (PT), travam uma verdadeira guerra de narrativas sobre quem realmente banca e entrega as grandes obras no estado. Essa batalha, que movimenta os cofres públicos e a percepção dos eleitores, levanta questões cruciais sobre transparência, eficiência e o verdadeiro impacto financeiro para o contribuinte.
Bilhões em Jogo: A Reivindicação de Haddad
Fernando Haddad, em suas primeiras inserções partidárias como pré-candidato, utilizou vídeos nas redes sociais e na televisão para destacar o papel do governo federal no financiamento de projetos vitais em São Paulo. Ele afirmou que o governo Lula (PT) é o grande responsável por "grande parte" das obras, mencionando:
- Financiamentos via BNDES: Como o R$ 1,3 bilhão para o trecho Norte do Rodoanel e o futuro Trem Intercidades (TIC) ligando São Paulo a Campinas.
- Repasses Diretos: Contribuições federais para hospitais e equipamentos de saúde.
- Garantias para Empréstimos: Apoio que viabiliza a captação de recursos para o estado.
- Renegociação da Dívida de São Paulo: Conduzida por ele mesmo como ex-ministro da Fazenda, liberando capacidade de investimento.
- Programas Habitacionais: O Minha Casa Minha Vida, que, segundo Haddad e o presidente Lula, responde por cerca de 60% das casas construídas e inauguradas no estado, muitas vezes renomeadas como "Casa Paulista".
Haddad enfatiza que São Paulo é o "grande motor da economia do país" e que "nunca um governo federal trabalhou tanto" pelo estado, acusando o governo estadual de não revelar esses investimentos.
A Resposta de Tarcísio: "Grande Bobagem" e Foco na Entrega
Do outro lado, Tarcísio de Freitas classificou as peças de Haddad como uma tentativa de "compartilhar a paternidade" de projetos que, segundo ele, estavam parados por anos. Em seu discurso na abertura do 68º Congresso Estadual de Municípios, o governador foi direto:
— Não adianta querer compartilhar a paternidade agora, pois isso é uma grande bobagem. A população cansou de politicar. A população quer entrega. — disse Tarcísio, referindo-se a obras como o trecho Norte do Rodoanel e a expansão de linhas do Metrô (Linha 17 e Linha 2 Verde).
A crítica de Tarcísio se estende à própria natureza do financiamento. Ele questiona a celebração de operações de crédito do BNDES como um "favor", argumentando que essa é a função primordial do banco. "Se o BNDES não existir para financiar a infraestrutura, vai existir para quê?", indagou, sugerindo que o empréstimo é uma obrigação institucional, não um ato de benevolência política.
Escalada da Tensão: Lula Entra na Disputa
A "disputa de paternidade" não é nova. Em março, o presidente Lula já havia criticado Tarcísio, alegando que o governador anuncia obras custeadas pelos dois entes "como se fossem dele". Lula foi especialmente incisivo sobre o programa habitacional:
— Aqui em São Paulo, praticamente 60% das casas construídas são do Minha Casa, Minha Vida, que aqui eles dão o nome de Casa Paulista. E o governador tem inaugurado muitas dessas casas, ele poderia pelo menos ter a singeleza de dizer “essas casas são feitas pelo governo federal, e eu pedi licença para chamar de Casa Paulista”. Que é um programa criado pelo Alckmin quando era governador. Nem nome ele criou, só plagiou — afirmou o presidente na ocasião.
Tarcísio, por sua vez, rebateu as críticas de Lula, declarando que está "acostumado a ouvir as bobagens dele" e que "quem não tem o que mostrar tem que viver de narrativa, de propaganda". A tensão se reflete também em episódios como a inauguração do Rodoanel Norte, onde o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, reclamou da ausência de menção ao financiamento federal na placa da obra.
A Visão do Especialista
Em um cenário onde bilhões de reais são investidos em infraestrutura e serviços essenciais, a "disputa de paternidade" entre governos é um desvio que custa caro, não apenas em tempo e energia política, mas na própria credibilidade das instituições. Para o cidadão comum, o que importa é a entrega eficiente e transparente das obras, e não a retórica sobre quem as financiou ou idealizou. É fundamental que os recursos públicos sejam aplicados com responsabilidade fiscal e que a comunicação sobre esses investimentos seja clara, focando nos benefícios gerados para a população. A politização excessiva de projetos de infraestrutura pode gerar desconfiança e até mesmo atrasar a execução, impactando diretamente o desenvolvimento econômico e social do estado. O foco deve ser na gestão eficaz e na prestação de contas, garantindo que o dinheiro do contribuinte se traduza em progresso real e tangível, superando a "grande bobagem" das narrativas eleitorais.